"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem é Duda? O que é o ficaduda?

 
Hoje recebi a pergunta quem é Duda? E passei a pensar: afinal, quem é Duda?
 
Duda é uma garotinha de quatro anos que há dois anos e meio passou a ser sujeito de cuidado afeto, amor, carinho -, que há dois anos e meio passou a ter direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, sendo colocada a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Duda foi negligenciada e sofreu maus tratos perpetrados por seus genitores. Duda passou com esses genitores dois meses de sua vida quando foi deles retirada da convivência, sendo a perda da guarda motivada pelos maus tratos. O genitor foi então identificado como alcoolista e a genitora como portadora de transtornos psicológicos. Os genitores, além de Duda, perderam a guarda dos outros seis filhos.
 
Duda foi acolhida e depois entregue em adoção, o processo já perdura há dois anos e meio, ou seja, perdura pelo período da colocação de Duda na família adotiva.
Duda tem pai, mãe, família extensa, amigos e uma rede social de acolhida. Duda é membro de uma rede familiar e se identifica como tal.
Duda tornou-se objeto de uma disputa entre o biológico e o afetivo.
 
Não tem esse texto o fito de discutir a lei, mas de observar alguns pontos. A Constituição Federal traz entre seus princípios basilares o da prioridade absoluta inserida em seu artigo 227. A prioridade absoluta é determinada apenas e tão somente à criança, ao adolescente e ao jovem.
 
No artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) encontra-se, também, inserida a prioridade absoluta com a seguinte redação: é dever da família, comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
 
A doutrina da proteção integral, por sua vez, encontra-se inserida no ECA, em seu artigo 1º, ao trazer que Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. Com relação ao princípio do melhor interesse da criança, o mesmo consolida-se em 1959 através da Declaração dos Direitos da Criança, sendo, identificado como um princípio constitucional por força da ratificação da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (ONU/89) por meio do Decreto 99710/90, sendo, portanto, um princípio em vigor no nosso sistema jurídico, haja vista o artigo 5º, § 2º, da Constituição Federal, devendo ser a premissa nas ações concernentes a todas as crianças, adolescentes e jovens brasileiros.
 
O ECA determina em seu artigo 19 toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes. Duda está sendo criada e educada no seio de sua família e tem todas as suas necessidades atendidas por essa família, sendo ela a que reúne melhores condições para exercer sua parentalidade, tendo comprovado, ao longo de dois anos e meio, maior aptidão para propiciar à Duda afeto, não apenas no aspecto da parentalidade e filiação como também no do grupo familiar e social em que Duda se insere, além de educação, segurança, saúde, amor, cuidado.
 
Duda tem seu melhor interesse atendido pela única família que teve em toda a sua vida. O parágrafo único do artigo 25 do ECA dá o devido valor jurídico ao afeto ao determinar que a família se estende aos familiares com quem a criança conviva e mantenha vínculos de afinidade e afetividade. Quem é essa família? Mais uma vez a única que Duda conhece e de quem a Justiça pretende retirá-la levando ao biologismo a prioridade que jamais teve e nunca poderá ter.
 
A decisão coisifica Duda e considera seus genitores como donos da criança, utilizando a concepção retrograda do direito romano, e acolhida pelo já revogado Código Civil de 1916, de propriedade dos pais sobre os filhos.

É necessário que Duda seja vista como sujeito de direitos e que se tenha em mente que ela se encontra em especial estágio de desenvolvimento. Duda tem inúmeros direitos fundamentais que estão sendo desrespeitados em prol de adultos que se provaram incapazes de exercer o poder familiar por toda a vida da criança.

Porque o judiciário mineiro entendeu que os direitos fundamentais a serem respeitados são os dos genitores e não os de Duda? Não está invertendo a prioridade absoluta pela supremacia dos laços de sangue? Não está rasgando a Constituição Federal?
 
É necessário que se faça valer o tratamento correto, e único, a ser dispensado a crianças, adolescentes e jovens a partir da aplicação do conjunto de normas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente, tendo como bases a Doutrina da Proteção Integral e os princípios da prioridade absoluta e do melhor interesse da criança.
 
Escrevo por Duda, Gabi, JV, Mell, Anita, Valentina, Vitória, Crystal, Vitor, Paulinha, Gabriel, Alexandre, Alysson, Christofer, Letícia, Laura, Zandor, Henrique, João, Giulia, Nina, Fátima, Eduarda, Yasmim, Luana, Mylena, Lucas, Thiago, Matheus, Miguel, Manuel, Heitor, Sabrina, Aurora, Leonardo, Cauã e por todos demais filhos não substitutos de nosso país.
 
Não permitam que nossos filhos sejam relegados a adjetivação, nossos filhos são apenas filhos, da mesma forma que somos somente e tão somente famílias.
Então, quem é Duda?
 
 
Silvana do Monte Moreira, Presidente da Comissão de Adoção do IBDFAM Instituto Brasileiro de Direito de Família, Diretora Jurídica da ANGAAD Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção e Mãe (sem adjetivos)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Não são as crianças o problema, mas sim aquilo que os seus pais desconhecem



We heart it
 
Deseducar não é deixar que um bebê almoce vendo um vídeo interessante uma vez ou outra, deseducar é querer que o bebê coma a todo custo a nosso modo, sem respeitar o seu humor, o seu momento. Uma criança precisa se sentir segura primeiro em seu lar para no futuro se sentir segura no mundo. Uma criança precisa se sentir aceita, entendida e acolhida para poder fazer o mesmo com os outros. Ninguém pode dar aquilo que não conhece, não se pode dar aquilo que não se experimentou.
Quando alguém me fala que as crianças quando crescem viram um problema, eu tenho vontade de dizer: "não são as crianças o problema, mas sim aquilo que os seus pais desconhecem."

É fácil fazer da nossa casa um "exército", difícil é saber ler nas entrelinhas na hora de educar. É preciso desenvolver sensibilidade, é preciso um olhar transdisciplinar.
 
Por Cintia Liana

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Prioridade Absolutinha

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Por Sávio Bittencourt
 
Todo livro que trata dos Direitos da Infância e Adolescência, em alguma parte, revela e enaltece o Princípio Constitucional da Prioridade Absoluta dos Direitos de Crianças e Adolescentes. Todo palestrante deste mesmo tema inicia sua fala com voz empostada ao declará-lo. Lembram-nos sempre que tal expressão “ABSOLUTA PRIORIDADE” só foi escrita uma única vez em TODA a Constituição: justamente para assegurar que o direito de crianças e adolescentes fosse, dentre os assuntos graves e importantes tratados pela Lei Maior, o mais proeminente. Este direito deve, por força do mandamento constitucional, ser atendido antes e mais profundamente que todos os demais, é o que se interpreta e se canta em verso e prosa. Muita prosa.

Pois bem. Lembro ao estimado leitor que a Constituição não é um mero protocolo de intenções, simpático, a ser implementado ao longo dos séculos vindouros, nem uma poesia utópica, fruto do diletantismo de sonhadores. Ela é uma norma concreta e cogente. Obriga Juízes e Legisladores. Obriga o cidadão e a sociedade. Condiciona as demais normas jurídicas: sua validade dependerá de serem elas compatíveis com o texto constitucional. Vincula, inclusive, a própria interpretação das leis, quando aplicadas aos casos concretos, pois esta aplicação deverá seguir seu espírito. Muito verso.

Portanto, em versos e prosa, temos a obrigatoriedade de todos os Poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário – de seguir a tal PRIORIDADE ABSOLUTA. A pergunta que se impõe é a seguinte: qual a razão desta prioridade não ser obedecida por nenhum destes poderes e por nenhuma das instituições que gravitam na órbita do Estado? Por que esta escandalosa omissão não é objeto de notícias na mídia? Por que não é o principal motivo das manifestações? A resposta é simples: porque as crianças violadas em seus direitos não têm dinheiro nem poder. Não influenciam, não patrocinam, não votam nem “dão votos”, não saem às ruas, não fazem rebeliões, não põem fogo em colchões.

Todos os interesses que provêm do poder político ou econômico têm atendimento com maior presteza e efetividade por parte dos Poderes constituídos. Interesses dos ruralistas, dos empresários, do consumidor (que ganhou poder político e de voto), dos que exercem mandatos, dos funcionários públicos, do trabalhador, todos, têm na estrutura dos Poderes formas mais formas de defesa. Tais interesses, justos ou não, são legislados, administrados e julgados com mais facilidade porque os Poderes lhes dão visível prioridade.

Assim, a PRIORIDADE ABSOLUTA da Constituição acaba por se transformar numa prioridadezinha, ou uma prioridade absolutinha: vale como retórica cínica de quem nada pretende mudar, de quem quer fazer demagogia tosca, de quem adora se mostrar militante mas gosta mesmo de fazer o jogo dos que estão no poder. Fica então isto dito assim, deste jeito, em prosa e sem verso, para que se saiba que havia quem se indignasse com tal iniquidade.
 
Sávio Bittencourt
(grifos meus)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A adaptação na adoção de bebês e na adoção "tardia"


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Por Cintia Liana Reis de Silva

A adaptação nos casos da adoção tardia não é mais difícil e nem sempre demora mais, mas é diferente. Em todo caso, a adoção em todas as idades faz-se necessário um tempo de adaptação. Nesse aspecto também entram variáveis, como seu temperamento, seu modo de sentir e lidar com seu histórico, suas memórias, “fantasmas” e medos e a base que os novos pais proporcionam a esta criança.
No caso da criança maior, ocorre que ela tem uma maior consciência do que está acontecendo no momento da adoção e a criança menor tem uma menor consciência. Essa consciência da criança maior pode até ser usada de maneira positiva no estabelecimento dos novos vínculos. Assim como os seus sentimentos devem ser respeitados e validados, o que ela sente é muito importante.
Na adoção da criança maior o processo de luto pela “perda” da família de origem, pela perda "do que poderia ter sido", pela dor do sentimento de abandono e rejeição vem junto com o início da adaptação, já no caso do bebê esse processo de consciência das perdas e da rejeição sofrida vem após a adaptação, quando crescem um pouco mais, mesmo assim os bebês também sofrem pelo corte do vínculo com a mãe ou com a família de origem, e o tamanho desse sofrimento vai depender  também do tempo que passou com eles e do apego desenvolvido. Após os 6 meses de vida e em convivência com a mãe biológica o sofrimento pelo corte do vínculo é infinitamente maior, porque o apego já foi desenvolvido e estabelecido.
O pai da teoria do apego, John Bowlby, descreve as fases de luto, que são entorpecimento e negação, anseio e protestos, desorganização e desespero, recuperação e restituição. Nessas fases toda a ansiedade também pode ser manifestada através de sensações e agitação noturna, até no caso de adoção de bebês.
A criança maior já conhece o que as une aos novos pais adotivos, o bebê pequeno entenderá o vínculo da adoção mais tarde e poderá elaborar o luto da perda da família de origem depois.
A criança maior muitas vezes tem o desejo consciente de fazer “dar certo” a nova relação parental, mesmo passando por um momento de possíveis turbulências e ajustes no novo núcleo familiar. Os pais devem ter delicadeza e paciência nesse momento. Não existe relação perfeita, criança perfeita, ou melhor, elas são perfeitas nessa imperfeição, isso faz delas humanas e é por serem humanas é que são capazes de empatizar, de sentir e de amar. Todos precisam de tempo para se adaptar aos laços que estão sendo formados e fortalecidos, todos estarão aprendendo.
É preciso se reeducar e estar mais sensível às nuances, ter paciência e confiança na escolha que foi feita. Toda relação necessita de cuidado, respeito e aceitação.

Por Cintia Liana Reis de Silva

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Criança precisa de compreensão

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Uma criança pequena precisa de muito mais que regras, precisa de algo que a maioria dos adultos não é capaz de exercitar nem com eles mesmos: precisa de compreensão, de empatia, precisa aprender a se expressar de maneira sadia e lúcida e sentir que aquilo que se passa no coração delas tem muito valor. A ciência ainda sabe muito pouco sobre a mente infantil. Não deixemos pra depois, o nome delas é agora. Criança precisa de amor, precisa que os pais se enxerguem mesmo contra a vontade deles. Criança não chora se não sente dor ou se não se sente triste. Até o que muitos chamam de manha guarda por trás uma insatisfação emocional.
Coisas importantes a serem lembradas: Crianças sentem a noção de respeito desde que nascem, sentem quando são enganadas e negligenciadas; Não tenha filhos para ser feliz, se faça feliz antes e faça filhos para fazê-los pessoas felizes e, assim, você será mais ainda; Se prepare antes de ter filhos, eles não nasceram para te salvar e nem para servir de companhia; Filhos não devem carregar nas costas as memórias familiares ruins; Filho não traz ninguém que já foi de volta; Filhos devem se sentir livres das expectativas neuróticas dos pais; Pais que fazem terapia podem se tornar bem mais fortes e preparados; Se o teu filho está mal olhe para você; As dificuldades familiares percorrem muitas gerações, é importante trabalhar os modelos intergeracionais. É difícil, mas é muito possível.
 
Cintia Liana

Não fugir de si mesmo é uma escolha muito nobre

We Heart it

As feridas emocionais nascem nos primeiros meses e anos de vida e algumas delas independem do esforço dos pais para dar o melhor aos filhos. Essas feridas se transformam em defesas que entravam futuras relações. Algumas vezes nem os próprios pais enxergam no que estão errando ou em que estão dando um mal exemplo, pois são humanos. No futuro, para essa criança que se tornou adulto, o mais importante não deve ser não ter feridas, dificuldades emocionais ou uma parte "sombra" que dá medo e dói enxergar, pois todos nós temos, o mais importante é procurar reconhecê-las com respeito, tratá-las com delicadeza e só assim curá-las com o devido cuidado para ser mais feliz e maduro, educando melhor os filhos e melhorando as futuras gerações. Esse é um excelente exercício de crescimento. Não fugir de si mesmo é uma escolha muito nobre.
 
Cintia Liana

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Eu não educo meu filho para a independência

Foto: We Heart it

By milfwtf, July 21, 2013
Eu não educo meu filho pra independência e sim para a autonomia, porque um ser humano nunca ser...á independente. Somos todos seres sociais que precisam uns dos outros para viver. Quem vem me dizer que devo dar menos colo para o meu bebê, quem sugere que eu o deixe em um carrinho em nome de uma liberdade que eu não desejo, quem diz que cama compartilhada é perigoso, quem diz que choro é birrinha manipuladora, quem se incomoda com o excesso de amor que dou pra ele, enfim, tem uma compreensão das necessidades de um bebê bem diferente da minha.
A minha compreensão (respaldada por evidências científicas e pela minha intuição) é a de que bebês precisam ser atendidos em suas necessidades de contato (pele, colo e peito) para que se sintam seguros e para que, assim, comecem a desenvolver a autonomia. Não sou eu que tenho que forçar esse aprendizado, a autonomia é uma característica inerente ao ser humano e a minha plena confiança nisso faz com que eu sinta prazer em ter a minha liberdade temporariamente limitada em prol do desenvolvimento da liberdade dele. Gradualmente ele se desenvolve. Eu confio na potência do meu filho. Confiança faz parte do amor. Amor é o oposto do medo. A minha liberdade, hoje, está em amar meu filho e faço isso por meio do corpo. Eu o amo com a pele, com o colo, com o seio.
Quando ele aprender a ouvir e a falar, quando ele aprender a me amar e a se relacionar com o mundo por meio das palavras, a necessidade da pele, do colo e do peito vai diminuir. Até que o seu vocabulário aumente e meu peito não seja mais necessário. Porque essa é a função do seio: nutrir e acalmar. Até que ele fique fluente na língua portuguesa e saiba verbalizar suas frustrações e inseguranças e não precise gritar e chorar e vir pro meu colo porque sabe que um diálogo resolve seu problema mais rapidamente. Até que ele não caiba mais dentro do meu colo. E mesmo depois de aprender a escrever, ele sempre terá as minhas mãos para um cafuné nos momentos em que palavra nenhuma funcionar.
Eu não o educo para a independência e sim para que ele seja uma pessoa confiante em sua própria capacidade de lidar com tudo o que acontecer com ele, inclusive com as frustrações. Isso é autonomia. Eu o educo para que ele saiba confiar em si mesmo. Para isso, ele precisa de alguém que confie nele antes. Eu confio no meu filho, acredito que seu choro é um chamado que merece ser ouvido, não birrinha. E sei o que ele quer quando me chama: colo, pele, peito. Eu o educo para que a partir de sua autoconfiança, ele tome decisões que tragam consequências positivas para sua vida e para o coletivo. Eu o educo para que ele também aprenda a confiar nas pessoas do mesmo jeito que quero que ele confie em mim. Eu o educo para que ele tenha uma referência cristalina de amor. Eu o educo para que ele entenda que eu não sou perfeita, que tenho direito ao erro tanto quanto ele, mas que eu busco desenvolver cada vez mais a minha capacidade de acertar, porque sempre é possível ser uma pessoa mais consciente. Não para ser independente.
 
A independência é a ilusão do século XX. Eu educo o meu filho para o século XXI. Para o hoje. E para o amor que é o que une todos nós apesar das diferenças. O amor infinito e atemporal.
 

domingo, 11 de agosto de 2013

Não são os dentinhos, é a fase oral!


Elena Kalis

Por Cintia Liana Reis de Silva
 
Porque os bebês babam e colocam objetos na boca

Philippe Ariès foi um importante historiador e medievalista francês da família e infância. Seu nome é o mais forte quando se trata da história social da criança. Em meu primeiro livro, "Filhos da Esperança", eu o cito, e falo que na idade Média as pessoas não tinham noção das particularidades da criança, da sua ingenuidade, delicadeza, por exemplo. Elas eram vistas e tratadas como mini adultos. Imagine a falta de informações e conhecimento acerca da infância naquela época! Ainda hoje sabemos e respeitamos muito pouco as crianças. Eu me lembro disso quando alguém olha para minha filha colocando um brinquedo na boca e pergunta se os dentinhos estão nascendo, com a certeza de que isso tem relação direta, mas sabia que a necessidade e a ansiedade de colocar os objetos na boca e babar não é por causa dos dentes?

A fase oral, primeira fase do desenvolvimento psicossexual infantil descrita por Sigmund Freud, o pai da psicanálise, inicia desde o nascimento (hoje já se sabe que inicia na gestação) e vai até aproximadamente os 18 meses de vida da criança. Alguns estudiosos verificaram que já no segundo trimestre de gestação os bebês, dentro da barriga da mãe, já chupam o polegar com desenvoltura e com vigor em média 18 vezes por hora.

A boca é a primeira zona erógena. Erógena é o nome dado a uma zona de prazer. Esse fenômeno da oralidade e da busca pelo contato físico e do calor faz com que o bebê procure o seio da mãe para sugar, ou seja, essa procura pelo seio não é por causa dos dentes, mas já é a fase oral em ação, onde todo o contato de prazer do bebê com o mundo é através da boca, dos lábios, da língua, da gengiva e está associado a alimentação. Enquanto é alimentada, a criança é também confortada, aninhada, acalentada e acariciada. Quando o bebê ingere o alimento é como se ele o incorporasse e é assim também com o seio materno, com a figura materna, é como se ele incorporasse a mãe, isso reforça o sentimento de ser  continuidade dela nos primeiros dois anos de vida.

É através da boca que o bebê tem o maior sentimento de descoberta, ele baba de desejo quando vê um objeto que lhe interessa experimentar. A sensação é de experimentar uma experiência em 4 D. As terminações nervosas ajudam a entendem o que estão mordendo.

O balbucio, o início da fala, assim como o nascimento dos dentinhos fazem parte desta fase. Os dentinhos começam a aparecer a partir do 6º mês mais ou menos. Alguns bebês ganham os primeiros dentes aos 10 meses que vão até o início das 3 anos, aproximadamente, mas bem antes disso, já no terceiro mês, além do seio da mãe, demonstram esse imenso desejo de sugar, primeiros suas próprias mãozinhas, apertam as gengivas, fazem barulhinhos com a boca, depois experimentam outras coisas, até os dedos dos pés, encostam a boca em tudo e seu mundo vai se ampliando.

A visão não é o forte do bebê, que continua a desenvolver a sua capacidade visual nos primeiros meses, e começam a enxergar com a mesma nitidez formas e cores, exatamente como nós adultos, a partir do 7º mês.

O conflito característico da fase oral é o desmame, que pode gerar reflexos como inapetência, vômito, hábito de ranger dentes, inibições da fala.

A criança amamentada o suficiente, ou seja, até mais ou menos os 2 anos de idade, como indica a Organização Mundial da Saúde, terá maiores chances de preservar mais fortemente aspectos como segurança e ingenuidade.

A não satisfação, conflitos ou traumas orais podem ser encontrados em pessoas que comem demais, em fumantes ou em traços como, ganância, dependência, intolerância, agitação, curiosidade e fofoca.

Por vários motivos o desmame deve ser feito com muito cuidado e delicadeza e entender e saciar o desejo de colocar algumas coisas na boca é essencial para o bebê, para que ele sinta o prazer de descobrir um pouco mais do mundo que o cerca, o mundo do qual faz parte.  Ele cresce e entra em outras fases sucessivas, descobrindo outras zonas do corpo e ganhando consciência delas.
 
Por Cintia Liana Reis de Silva

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Idade não define e nem traz maturidade


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Por Cintia Liana Reis de Silva

O norte ameriano Murray Bowen, pai da psicoterapia de família e do pensamento sistêmico-relacional, criou uma teoria que explica o processo da progressiva autonomia individual como consequência do movimento da “separação” da própria família de origem.
Bowen disse que existe uma força vital, chamada de diferenciação, que é a capacidade instintiva que impulsiona o ser humano a amadurecer e a tornar-se uma pessoa emocionalmente independente da família, apesar de que ninguém nunca será capaz de adquirir uma completa independência emocional em relação a ela. Esse fenômeno de diferenciação do self pode se iniciar na adolescência, durar por várias décadas e às vezes não se conclui nunca. Por outro lado, o sentimento de não pertencimento significa uma pseudo independência. O corte emotivo e o afastamento da família de origem é um problema que precisa ser resolvido, pois traz grandes conflitos à vida do sujeito.

Bowen criou uma escala de maturidade e nessa escala ele explica e define os níveis de maturidade, que não estão relacionados à idade ou a experiência de vida, mas que são passados de pais para filho, ou seja, quanto maior é o grau de maturidade dos pais, maior poderá ser o grau de maturidade dos filhos. A diferenciação básica é amplamente determinada por um processo emocional multigeracional. Ele fala de possibilidades e não generaliza em nenhum momento.

A criança e o adolescente são altamente influenciados pelos pais, pela forma como vivem, se relacionam, reagem, etc, e ele aprende a viver a partir desses primeiros modelos, mas não só do exemplo de comportamento, mas principalmente aprende a usar o mesmo repertório emocional, o sentimento empregado, os pensamentos, crenças, fantasmas e mecanismos intrapsíquicos.
No nível mais baixo da escala de diferenciação de Bowen, por exemplo, está quem depende totalmente dos sentimentos que os outros vivenciam em relação a ele e não se encontra capaz de diferenciar afeto de intelecto, cresce dependente da massa do Eu familiar com uma identidade emotiva conglomerada, ao longo da vida atrai outras relações de dependência das quais possa pegar emprestada a força de que precisa para funcionar. São pessoas solitárias, ansiosas, não sabem se relacionar de modo equilibrado e satisfatório com o mundo, e tem um forte sentimento de inferioridade, não cria relações duradouras e se sente desconfortável nelas. São pessoas que agem sempre no intuito de ir contra a opinião dos outros, normalmente são crianças nascidas em famílias desarmoniosas, com um alto grau de tensão, com pais desatentos e imaturos. Esses indivíduos quando crescem têm como repertório de valores e crenças opor-se a crença dos outros, são negativistas e contraditórios.

Mas o que é maturidade? É a capacidade de seguir seus próprios valores e princípios, atingindo os objetivos que se propõe, é ser responsivo, assumindo total responsabilidade sobre si e suas próprias ações. É ter um senso bem apurado de justiça, ser ético, humilde, conseguir ser racional e menos reativo, não ser levado por emoções negativas. É o que eu, como psicóloga, entendo como felicidade: é esse estado constante de tranquilidade e segurança, a capacidade de agir com sabedoria diante de todas as coisas.

Maturidade também se refere ao grau de autoconhecimento, ou seja, quanto mais alguém se conhece, também conhecerá seus pontos fracos, suas dificuldades emocionais, suas feridas infantis e no que precisa melhorar e assim terá uma melhor qualidade na relação com o mundo e com as pessoas que o cercam; criará bons filhos e com eles terá uma relação muito nutritiva; se sentirá confortável em qualquer lugar e em qualquer companhia, pois conhece seus limites, desenvolveu uma boa auto estima e um bom senso de valor de si mesmo. Não precisa de bebidas ou drogas para se sentir seguro. Quem é diferenciado procura enxergar seus modelos familiares intergeracionais adoecidos e  emaranhados, aquilo que ele quer levar e o que ele quer abandonar em relação a sua própria família, e entende que pode fazer melhor do que os seus pais fizeram, melhorado as futuras gerações.

Idade não define mesmo maturidade. Podemos, por exemplo, observar uma pessoa de 35 anos com um alto grau de autoconhecimento, que consegue aceitar e respeitar os outros e com uma vida conjugal feliz, formando um casal coeso, como podemos também encontrar uma pessoa de 65 anos dependente dos pais ou de sua imagem, reativa, com um grande sentimento de inferioridade, que não consegue aceitar os outros, que expressa um comportamento negativo e rebelde e que não sabe se relacionar com nenhum parceiro. Eles repetem com o mundo a relação que têm com eles mesmos. Quanto mais nos conhecemos, nos respeitamos e nos aceitamos, mais conseguiremos conhecer, respeitar e aceitar os outros. O mundo é um espelho de nós mesmos, ele é conosco do mesmo modo que somos com ele.

Se desenvolver e melhorar aspectos do caráter, personalidade e  temperamento, é um processo contínuo, caso seja positivo o desejo de continuar crescendo. As experiências podem ajudar nesse processo de crescimento, mas cada um passa pelas situações e as usa a seu modo. O olhar de cada observador deforma a realidade, ninguém vivencia os mesmos fatos da mesma forma, pois os seres humanos têm referenciais diversos.

Conhecer bem a história da própria família e de seus antepassados abre estradas e recursos internos inovadores, se abre uma nova consciência existencial de pertencimento e ao mesmo tempo de independência. Fazer terapia com a perspectiva familiar é um ótimo modo para se conhecer a fundo partindo da família, para mudar paradigmas e melhorar a vida, mas além do autoconhecimento, o estudo, o conhecimento geral também pode ser algo que amplie o Universo de uma pessoa, ou seja, quanto mais existir a busca do conhecimento, nas áreas humanas em especial, mais o seu repertório se amplia e assim a sua vida emocional se enriquece, deste modo se pode melhorar a relação consigo mesmo e viver emocionalmente de modo muito mais confortável no mundo.
Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia conjugal e familiar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A importância de engatinhar para o bom desenvolvimento cognitivo-intelectual da criança


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Por Cintia Liana Reis de Silva

Ver o filho se desenvolver bem é ótimo, mas desenvolver-se rápido demais e pular etapas naturais podem trazer vários problemas à crianças, sobretudo às etapas posteriores. Novos estudos mostram que não engatinhar o suficiente pode fazer com que a criança desenvolva dislexia.

A dislexia é uma desordem cognitiva e na linguagem, na abstração, na formação dos conceitos e das metáforas. É uma perturbação apresentada por crianças e adultos,. Essa perturbação estão nos processos abstratos, como deduzir, interferir, generalizar, conotar, associar, categorizar, etc. Denomina-se uma desordem da linguagem, porque impede as relações entre linguagem auditiva e a linguagem visual (receptiva e expressiva).

A dislexia é o  distúrbio mais encontrado nas salas de aula. Pesquisas mostram que aproximadamente 10 a 15% da população mundial é disléxica.

Esse transtorno traz problemas e lentidão na aprendizagem da leitura, escrita e soletração, dificuldades com a ortografia, disgrafia, discalculia, dificuldades com a matemática, com a memória de curto prazo e com a organização. Dificuldades em seguir indicações de caminhos e em executar sequências de tarefas complexas, dificuldades para compreender textos escritos e em aprender uma segunda língua. Poderá também trazer dificuldade na percepção espacial e confusão entre direita e esquerda.

A dislexia deve ser tratada por uma equipe multiprofissional que inclui o psicólogo.

Há quem pense que a dislexia é um problema de baixa inteligência, mas na verdade, além do componente hereditário-neurológico, há seus fortíssimos componentes ambientais-educativos que dizem respeitos aos estímulos que a criança receberá em casa.

Explorar a posição no prono (barriga para baixo) e, posteriormente, engatinhar são etapas importantíssimas do desenvolvimento psicomotor infantil, que devem ser vivenciadas de maneira significativa, pois além de fortalecer e desenvolver toda a musculatura dos ombros, braços e pescoço, fortalece também músculos que auxiliam na respiração; coordena os dois lados do corpo e, assim, facilita o desenvolvimento da lateralidade. Engatinhar também auxilia na habilidade da coordenação motora fina (atividades manuais delicadas, como escrever); integra vários reflexos primitivos vitais para o ganho de complexas habilidades motoras; facilita a comunicação dos dois hemisférios cerebrais, cruzando assim, a linha média cerebral e gerando habilidades para uma boa leitura. Psicologicamente fortalece o senso de estar seguro, enraizado no chão, dando um senso de autonomia para explorar o ambiente e entender que pode começar a se locomover sozinho, do modo correto, como pede o seu pequeno corpo naquele momento.

Há quem evita que o filho fique no chão de casa pensando ser uma atividade anti higiênica, ou que o coloca para usar o andador, pensando que o fará andar mais rapidamente, fortalecendo os músculos das pernas, mas essa prática, além de forçá-las de modo errado antes do tempo, pode fazer com que elas fiquem tortas. De todo modo, o andador já é proibido aqui na Itália, não se fabrica mais e já está sendo tirado de circulação do mercado. No Brasil os médicos querem aboli-lo, pois além de causarem atrasos no desenvolvimento infantil, é causador de acidentes domésticos.

Aproveito esse texto para lembrar que se faz necessário a compreensão de muitos fatores para poder estimular e educar bem os filhos, que vão muitíssimo além de impor limites educativos e de não acostumá-los mal. Os pais devem trabalhar seus próprios medos. Há até os que não deixam o filho correr. As crianças precisam descobrir os seus próprios limites, só assim conseguirão usar a sua liberdade com segurança e sabedoria no futuro.

Por Cintia Liana Reis de Silva
 
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domingo, 14 de julho de 2013

A doença e sua relação com o estado emocional da criança e do adulto

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Como disse o jornalista e poeta brasileiro Olavo Bilac, “uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével”.

Quem hoje se prepara para ter filhos? Quem conhece os seus processos intergeracionais familiares? Quem já fez terapia para se entender antes de procriar? Quem conhece a fundo as suas verdadeiras feridas? As dificuldades existenciais são passadas de pais para filhos e todos têm as suas. Como melhorar as futuras gerações se os pais não têm essa consciência do que não funciona bem na vida de sua família e em sua própria vida?

Psicólogos de todo o mundo, especialistas em desenvolvimento infantil, sabem que é na primeiríssima infância que nascem as neuroses e psicoses em todas as famílias. Esses problemas, em geral, são desencadeados na idade pré-escolar com o início da vida social fora da família.

O que pode parecer para nós adultos simples passagens da idade e a necessidade de maior independência, para as crianças podem representar grandes choques ou pequenos traumas que vão se acumulando e tomando forma, eclodindo aos poucos e influenciando na construção da personalidade.
Os processos cognitivos do recém nascido são de natureza muito primitiva, sendo difícil de entender como ele interpreta uma cadeia de acontecimentos que o faz sentir inseguro, por exemplo.

O modo de comunicar os sentimento na linguagem infantil é a produção de um sintoma físico ou um comportamento disfuncional, assim como sintomas físicos podem causar desconforto e sintomas psicológicos.

A disciplina psicossomática na psicologia mostra que a doença física aponta um estado emocional alterado. O corpo é um reflexo da mente, a imunidade física também depende do estado emocional do ser humano. Todos os órgãos, sistemas e aparelhos sofrem algum tipo de alteração dependendo das emoções e pensamentos que temos. Assim como a expectativa, a agitação, a ansiedade ou medo diante de algum evento futuro pode causar uma alteração física mesmo que transitória, como um quadro febril.

Problemas físicos sem causas orgânicas ou sem explicação médica são chamados de psicossomáticos ou somatoformes como, por exemplo, a infertilidade em algumas mulheres, que na terapia familiar mostra que pode estar ligada a sua relação mal resolvida com a sua própria mãe, o que afeta o seu sentimento relacionado à sua mãe internalizada, caracterizando um conflito.

As doenças também têm seus fatores relacionados a predisposição genética e a fatores ambientais, mas os fatores psicológicos ajudam muito a desencadeá-las.

Cada criança reage aos acontecimentos que vivencia a seu modo, mas é comum bebês e crianças, por exemplo, apresentarem crises e problemas no aparelho respiratório, como asma, pneumonia, bronquite, rinite alérgica, choros, tosses, gripes, crises de garganta, após vivenciarem sentimentos ligados a tristeza, ao medo, ao abandono e a carência efetiva, que eclodem após situações como, a volta da mãe ao trabalho, início da ida à escolinha ou problemas relacionados à ela, separação dos pais, crises ou violência conjugal, violência urbana, ruptura emocional, sentimentos de limitação, mudanças de casa, de escola ou de amizades, crise econômica afetando a família, doença grave, conflitos internos associados a passividade, insegurança, irritabilidade, estresse agudo, morte na família, fobias, mães dominadoras, pais ausentes na educação e toda ameaça de separação ou perda.
Em relação ao perfil da própria criança, ela pode apresentar passividade, dificuldades de comunicação, introversão, agressividade, baixa autoestima e sintomas de depressão.

Sem contar que nos primeiros meses de vida a criança também reflete a alma da mãe, como expliquei em meu texto “Aquele abraço negado”, onde também falo sobre a importância de colocar ao máximo o filho no colo, em contato com o corpo da mãe, para o sentimento de segurança e alegria profunda, entre outras coisas tão importantes para o seu desenvolvimento global.

Outros sintomas psicossomáticos comuns ligados a outras situações são: dor de cabeça, no ouvido, de garganta, de estômago, dor de barriga, dor ao urinar, dor nas pernas, distúrbios na salivação, aftas, náuseas e vômitos, enjoo de viagem, dor abdominal, colite, encoprese, prurido, urticária, eczema, palidez, desmaio, taquicardia, enurese, torcicolo, espasmo, tremores, tiques, tontura, cefaléia, enxaqueca.

A criança não sabe metacomunicar, isto é, dizer o que está errado na comunicação entre ela e os pais, então ela cria situações ou sintomas que deflagram o problema emocional e quando o remédio trata só a doença é como se o adulto a calasse, sem respeitar ou fazer a leitura do que realmente importa, a causa, ou seja, o seu sentimento frente a uma situação. Nesse momento, a família deve repensar a sua postura frente a ela, que pode apresentar durante muito tempo os mesmos sintomas ou sintomas parecidos e acabar crescendo sendo medicada.

As doenças e quadros sintomatológicos infantis devem ser tratados por uma equipe interdisciplinar ou, ao menos, pelo psicólogo e pelo pediatra, só assim teremos um tratamento mais completo e sadio para a criança, olhando o físico e o mental-emocional, mas infelizmente o nosso sistema sanitário ainda é muito arcaico e precário e não inclui o psicólogo nesse diálogo como deveria, assim como a maioria das pessoas não é bem informada o bastante para buscar a ajuda de um psicólogo, quando é só ele que pode ajudar. Temos também o belo trabalho da terapeuta floral, do naturopata, do médico homeopata, do fitoterapia, que são muito importantes, mesmo quando se trata de prevenção.

A psicologia trata também pacientes com doença e desequilíbrio mental, mas é uma ciência magnânima, que auxilia sobretudo pessoas ditas “normais”, trazendo a tona os mistérios da mente e das relações, ajudando na promoção da saúde de toda a família e no bem estar da criança.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta desde 2000. Escritora. Especialista em psicologia conjugal, familiar e adoção. Seu blog recebe mais de 15.000 visitantes ao mês, o www.psicologiaeadocao.blogspot.com.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Sobre dormir com o filho e a real independência infantil


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Por Cintia Liana Reis de Silva 

A vida moderna impõe cada vez mais que a sociedade repita que os bebês devem desenvolver independência e insiste em práticas que conduzem a uma mentalidade de que o contato íntimo mãe e bebê é, de certa forma, prejudicial aos dois, sobretudo nesse ritmo frenético em que vivemos em meio a globalização. As pessoas confundem a importância do contato mãe e bebê com a necessidade de começar a educar e a dar limites. Assim é fácil cair no erro de sentir que esse lado primitivo e instintivo da maternidade é “anormal”, ofensivo à sociedade, que complica e desajuda e, ao final, desrespeita mãe e criança que acabou de nascer e a impede de sentir o calor necessário para ser feliz e se sentir inteira.

Hoje em dia é difícil ouvir a verbo parir e mais difícil ainda ver uma mulher amamentar a sua cria, pois para isso, além de ser necessário muito equilíbrio emocional e privacidade, é também necessário se desapegar de muitas crenças ocidentais e abandonar certos valores, um pouco da vaidade, da imagem, “descer do salto”, esquecer das unhas feitas, achar magnífico o cheiro do leite e, se precisar, se “descabelar” mesmo e ver beleza nisso tudo. Uma mãe que amamenta exala sensualidade.

A espécie humana é a única que não sobrevive sem a atenção de um cuidador, alguém que lhe dê alimento e afeto. É também a única espécie de mamíferos que não está sempre acompanhada da mãe no período da amamentação, assim como a única que não coloca o filho para dormir junto ao seu corpo.

Como já escrevi em meu texto “Aquele abraço negado”, onde mostro a importância de colocar ao máximo o filho no colo, eu também falo da fusão emocional mãe e bebê que vai até o segundo ano de vida, até quando o bebê sente que é uma extensão do corpo dela e sente tudo o que ela sente. A partir dos dois anos ele adquire uma autonomia mais expressiva e significativa e nesse momento entra a figura do pai em cena e vai mostrar o mundo a ele, reivindicando também a companhia de sua mulher, facilitando a separação emocional que é um processo contínuo até o início da adolescência, quando é de fato importante a independência, aí sim o ser humano deve ser mais estimulado a se separar da família e a desenvolver seu próprio Self. Mas uma criança de 6 meses não é e nem deve ser independente, ela deve estar perto da mãe e saciar esse desejo de afeto e de calor.

Penso que a licença maternidade deveria ser de dois anos, seria bom para a criança e bom para a mãe, que após esses primeiros dois anos retoma o seu espaço psíquico e deixa de se ver e se sentir “mãebebê”.

É na primeiríssima infância que ocorre o nascimento de possíveis neuroses e psicoses que poderão eclodir na fase pré-escolar, no contato social cotidiano. Os pais devem estar muito atentos ao que para eles é somente a necessidade de promover independência, manha ou manipulação da criança pequena, mas que para ela podem representar verdadeiros choques emocionais e reais necessidades não compreendidas. Uma criança é diferente da outra e também expressa o que vê e vive em seu ambiente e em seus pais.

Ao contrário do que dizem muitos especialistas, baseados em teorias ocidentais, dormir com os pais pode ser positivo. Se torna negativo quando o casal usa a criança como desculpa para não fazer amor, ou para camuflar um conflito conjugal, desse modo de fato é muito negativo, inclusive dormir em meio ao casal, que simbolicamente não é nada bom. A criança pode dormir ao lado da mãe, com o devido cuidado para não cair da cama e para que ela não role para cima do bebê.
 
Pode ser também uma medida curativa para crianças adotadas que sofreram privação afetiva.
Coloque a mão em seu coração e se pergunte, “dormir com o meu bebê é importante para mim e para ele?”, “de que modo isso pode ajudar no fortalecimento do nosso vínculo e em sua segurança para a vida?”. Pesquisas mostram que as mães têm esse desejo, essa necessidade, mas se sentem em culpa diante de uma tempestade de críticas e conselhos distorcidos. Mas tente não sentir culpa, seja justa! O seu filho é mais importante que todos.

Dos 8 ou 9 meses até os dois anos ocorre a angústia de separação e após esse período a criança está pronta para criar mais autonomia. A mãe é aquela que consegue sintonizar na mesma energia do filho, por causa da fusão, e quando ela se sentir pronta, segura e desejosa para colocá-lo em seu quarto, será uma boa e importante experiência para os três, pai, mãe e filho.

Por Cintia Liana Reis de Silva

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Françoise Dolto sobre inteligência infantil e rendimento escolar

Foto de uma página do livro "A culpa é da mãe", de Elizabeth Monteiro
Françoise Dolto é mesmo maravilhosa!
 
A grande psicanalista francesa Françoise Dolto afirma que a inteligência escolar não é quase nada comparada a inteligência geral, que inteligência é dar sentido a tudo na vida e em seu livro “Quando surge a criança”, 1998, diz que,

a “retidão de caráter, o amor, a observação da natureza, das plantas, dos animais, a alegria de viver, a inventividade engenhosa, a habilidade manual e corporal, a afetividade disponível, a experiência psicológica do outro e da vida coletiva, a aceitação da diferença dos outros, a capacidade de fazer amigos e de conservá-los, o conhecimento da história de sua família, de sua comunidade, de sua região, de seu País, o despertar para a arte, para a cultura, para os esportes, o sentimento de responsabilidade, a curiosidade de tudo e a liberdade de satisfazê-la são qualidades que muitas vezes não se desenvolvem quando o sucesso na escola é o único valor pelo qual uma criança é apreciada pelos pais."

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Salão de beleza e spa para crianças

Groupon
 
A humanidade esta' emburrecendo, definitivamente. As crianças engolidas pelo capitalismo, por uma concepção do que é belo baseado na aparência, na imagem e no que é falso e superficial. E muitos pais é que servem de exemplo.

Que ganha dinheiro em cima das crianças desse modo acaba por corrompê-las, não passa de um corrupto. Não podemos nos acostumar com isso e banalizar o que é alienante.

As crianças têm que ser incentivadas na retidão de caráter, no amor ao próximo, a ter contato com a natureza, com os animais, na criatividade, incentivadas a ver beleza em correr descalças, a se sujar, a achar graça em ficar descabeladas, a ver beleza em ser alegre, em ser sorridente, a sentir alegria em ver outras pessoas felizes. A dançar, a cantar, a inventar, a viajar, a ler, a escrever, a viver em sociedade com menos competição e inveja, em não querer nada do que é dos outros, a respeitar as diferenças, a entender os amigos, saber escutar, saber falar o que sente, a descobrir e a desenvolver os seus talentos, a sonhar, a buscar se realizar por seus próprios méritos, a futuramente ter consciência e a ser responsável por suas escolhas. Essas sim, são características notáveis de uma criança e de um adulto, e uma vida que vale a pena admirar. 
 
Cintia Liana

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A metacomunicação da criança e o sintoma

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A criança não tem maturidade suficiente para metacomunicar, ela cria um sintoma. Antes de "diagnosticar", procure enxergar, aceitar e respeitar as reais necessidades do seu filho, que vai além dos interesses dos adultos ou do que eles são geralmente capazes de ver. Criança também ensina e muito, basta abandonar o medo, o vício de rotular, de estigmatizar, de criticar. Basta aprender a deixar fluir a sensibilidade.
 
Cintia Liana

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ter filhos, o projeto de vida mais sério e belo

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Antes de ter filhos as pessoas deveriam ler Françoise Dolto. Deveria existir um curso de preparação, uma severa avaliação, como para a adoção. Desse modo, o futuro da humanidade estaria quase salvo e as crianças felizes. Ter um filho é o maior projeto de vida que alguém pode ter, é o mais sério, arriscado e pode ser também o mais belo, onde se pode fazer de alguém muito feliz ou totalmente desequilibrado, sobretudo no que diz respeito a primeira infância.
Crianças... Inocentes crianças.
 
Cintia Liana

O peso do segredo na adoção


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Por Cintia Liana Reis de Silva

"Todo ser humano precisa da verdade sobre a sua existência para apropriar-se desta e organizar-se dentro de sua própria vida". (Cintia Liana)

A chegada do filho, que é trazido pelos pais adotivos, é tão perfeita como no parto. Na adoção existe a substituição completa da família de origem, exceto a nível biológico. (FLARTMAN, 1994)

O Segredo na adoção pode significar sinal de insegurança dos pais ou de que nem eles mesmos vêem ou acreditam na beleza da relação adotiva. Medo? Vontade de encobrir uma possível infertilidade? Receio do filho sofrer preconceito? Sim, isso é real, mas é algo que precisa ser trabalhado e não levar os pais a trazerem um outro problema para o filho, ou seja, colocarem nas costas dele "o peso insuportável e incômodo do segredo".

A criança já cresce sentindo um mal estar, um tabu relacionado a sua existência, algo que não é falado, pois é entendido como "feio". O problema que não é falado é a história dela, da criança. Mais que complicado crescer sem saber o que te aflige inconscientemente é esse mal estar voltado para a sua própria história de vida, para o seu nascimento, ou seja, o sentimento em torno de sua vida e a forma em como chegou está contaminado por algo que não é dito, que nem os pais, que deveriam ser fortes o suficiente  e enfrentar os seus fantasmas, estão dando conta.

No fundo, essa história pode ser um eterno fantasma, um peso para toda a família, motivo de repúdio e fazer com que a criança cresça sentindo um mal estar que ela nunca conseguirá decifrar, só sentirá que sua vida está ligada a um segredo indesvendável, segredo este que envolve a forma como ela foi gerada e que compromete a relação de respeito e confiança com as pessoas que ele deveria mais confiar, os pais adotivos.

Um ser humano estigmatizado é protegido por um segredo, mas o segredo também promove a estigmatização. (FLARTMAN, 1994)

Os pais acham que sabem esconder bem, mas a linguagem vai muito além da falada, da consciente. Há a linguagem do olhar, do toque, dos gestos e toda a infinidade de linguagens inconscientes que vão além de nosso controle e entendimento.

Como será tocar no filho e pensar, "eu não te conto que você nasceu de outra barriga porque tenho medo de você não me amar como uma mãe de verdade". Ela mesma já se sente a "mãe de mentira". E quem é a mãe de verdade? Não é aquela que está junto? Deve ser muito mais difícil pensar isso todas as vezes que abraçar o filho e crescer nesta culpa, ao invés de abrir a alma, o corpo, a voz e todas as portas do universo para a verdade mais justa e tranquila, a verdade que o filho merece, a verdade que não pode ser roubada dele.

Será que é mais fácil omitir, mentir ou preparar o filho para ser um grande homem, enxergando todo o lado positivo da adoção e lamentar o que se deve de fato? O segredo serve para quê, proteger o filho de sua própria história?

A verdade ninguém muda, por pior que ela seja é a única que existe, o que pode mudar é a nossa postura diante dela, assim tudo pode ficar mais leve e mais bonito. 

Se alimantarmos o segredo, além de plantarmos em nosso lar a desconfiança estamos, desta forma, aceitando o preconceito de achar que a relação adotiva é inferior a biológica.

Sobre o segredo e a dificuldade em dar o espaço merecido à verdade, o adotado fala de uma sensação de vazio, de um vácuo que causa perturabação e dor. Deve mesmo ser muito assustador e desnorteante não fazer contato consciente com a sua própria história de vida. Muitas coisas parecem não fazer sentido. A identidade do adotado estará intimamente ligada ao segredo.

As pesquisas científicas revelam que pais adotivos que discutem abertamente e compartilham informações criam adultos mais seguros e com um senso firme de self. (FLARTMAN, 1994)

A aceitação da diferença é uma variável importante na previsão de adoções bem sucedidas. Isso é também de grande importância aos olhos do técnicos que avaliam os candidatos a habilitação.

Sobre todos os aspectos da adoção, a crianças deve sentir que sua chegada ao mundo foi um acontecimemto especial e que a sua vida vale a pena ser contada. 

Referência:
FLARTMAN, A. Segredos na família e na terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Fazer terapia é um luxo!


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Por Cintia Liana Reis de Silva

O termo terapia significa relação de ajuda e psicoterapia relação de ajuda através do psiquismo. O profissional habilitado para fazer a psicoterapia é o psicólogo que tem formação na área.

A mente humana é um enigma onde podem ser encontradas todas as respostas para os aspectos da vida do homem, os motivos de seus problemas, infortúnios, escolhas mal feitas, padrões de comportamento, falências, repetições de erros, relações conflituosas, problemas com os filhos, etc. Todos esses mistérios podem ser desvendados com cuidado, com o desejo do terapeutizando em um processo contínuo, sério, de investimento emocional, de tempo e na frente de um profissional competente e ético.

Ainda existem muitos preconceitos em relação a terapia e a quem se submete à ela, mas em alguns círculos sociais fazer terapia é sinal de inteligência e maturidade. Em alguns Países já virou moda e sinônimo de elegância, trazendo um certo status social.

A verdade é que quem se submete a um processo de autoconhecimento no mínimo quer se confrontar, não se acomoda em se conhecer pouco, como a maioria das pessoas. Quer cuidar e se sentir bem consigo mesmo sem artifícios: como fazer fofoca e nutrir curiosidade pela vida alheia para achar que a sua vida é um pouco melhor; comprar para se sentir mais valorizado; beber e usar drogas para se sentir mais seguro; ser arrogante ou se sentir falsamente mais inteligente ou especial para e sentir menos inferior ou mostrar aos outros que possui bens materiais para se sentir mais importante.

Na terapia se pode construir um self mais sólido, pois se adquire uma visão sócio histórica mais consciente de si mesmo e se entende que a autovalorização é algo que vem de dentro para fora e não de fora para dentro, que o se sentir bem é uma busca de quem se é de forma franca, se aceitando, se respeitando, se sentido responsável por sua própria vida e capaz de mudá-la e isso inclui o reconhecimento da própria família, da própria história, da própria identidade, das próprias feridas infantis, dos dilemas, fragilidades, traumas, faltas, carências e dores.

Problemas físicos também podem nascer das dificuldades e contratempos emocionais, como febres sem motivo, dores do corpo, problemas respiratórios, de pele, gastrointestinais, dificuldade em engravidar e muito mais. Existem várias áreas da psicologia que tratam esse sintomas físicos como a psicossomatização, a biossíntese, a bioenergética... O corpo é um reflexo da mente, dos sentimentos.

De acordo com a teoria de sistemas familiares e do teórico Bowen existe uma força vital que é a diferenciação. É uma capacidade instintiva que impulsiona o ser humano a amadurecer e a tornar-se uma pessoa emocionalmente independente da família, apesar de que ninguém nunca será capaz de adquirir uma completa independência emocional em relação a ela. Mas quanto maior é o grau de maturidade dos pais, maior poderá ser o grau de maturidade dos filhos, ou seja, a diferenciação básica é amplamente determinada por um processo emocional multigeracional. Mesmo assim, o indivíduo pode chega num ponto onde começa a ver mais claramente os seus modelos familiares intergeracionais adoecidos, o emaranhado familiar, aquilo que ele quer levar e o que ele quer abandonar em relação a sua própria família, e entende que pode fazer melhor do que os seus pais fizeram, melhorar as futuras gerações, se tornado menos reativo e mais responsivo, com a capacidade de pensar, sentir e agir por si mesmo e só após essa tomada de consciência é que ele estaria em grau de ter filhos e educar um outro ser humano.

Idade não determina e nem traz maturidade. Algumas pessoas podem ficar paralisadas no tempo, com uma baixo nível de diferenciação. São pessoas reativas, ansiosas e solitárias, não criam relações duradouras e se sentem desconfortáveis nas relações. Podem se sentir secretamente superiores para encobrir o sentimento de infelicidade, inferioridade e vazio. São pessoas que agem sempre no intuito de ir contra a opinião dos outros, normalmente são crianças nascidas em famílias desarmoniosas, com um alto grau de tensão, com pais desatentos e imaturos. Esses indivíduos quando crescem têm como repertório de valores e crenças opor-se a crença dos outros, são negativistas e contraditórios.

A terapia facilita e promove esses processos maturacionais, pois nela exercita o olhar voltado para si mesmo e vê não só o que ele quer mas também o que ele não gostaria de ver, a sua parte sombra, a sua imaturidade, dependências, vícios cotidianos, como de fato está educando seus próprios filhos e enxerga o que ele passou a vida escondendo dele mesmo e dos outros, caem suas  máscaras sociais aprendidas, se questiona os padrões familiares internalizados. O paciente aprende a comunicar e traduz em palavras o que o incomoda nos outros e em si mesmo e vai entendendo os seus sentimentos, de onde vêm e quais são as suas causas.

A partir dessa tomada de consciência o paciente se liberta de muitas amarras invisíveis, o funcionamento do seu self se torna menos dependente do suporte e da aceitação dos outros e pode aprender a se relacionar de um modo mais confortável e a se comportar como sempre teve vontade, mas não conseguia, se permitindo crescer.

Resumindo, fazer terapia é para os “fortes”, afinal se olhar no espelho “nu e cru” não é algo para os “fracos”. Os fracos fingem não ter dificuldades, já os fortes querem vê-las, enfrentá-las e superá-las. Enfim, fazer terapia é um luxo!

Por Cintia Liana Reis de Silva
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Maturidade para aceitar a evolução do pensamento humano


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Por Cintia Liana Reis de Silva

Há algumas décadas se acreditava que os negros eram como animais, que não tinham a mesma inteligência dos homens brancos. Há tantos anos se acreditava que as mulheres não eram capazes e inteligentes como os homens. Ainda hoje existem tantos preconceitos contra a adoção, com as famílias adotivas, com as crianças que foram adotadas, acreditando que a adoção é uma filiação de segunda ordem e que as crianças adotadas terão como destino serem problemáticas. O mesmo absurdo, muito conveniente para a igreja, um pensamento ignorante, cometem aqueles que repetem e acreditam que os homossexuais não são pessoas sadias como os heterossexuais, que não têm capacidade de adotar, amar e educar bem uma criança, um filho.

Infelizmente ainda são tantas as pessoas que raciocinam com a cabeça da igreja católica e que não têm a liberdade de pensamento, não procuram estudar, ler, pesquisar, serão sempre escravos e vítimas dos que manipulam as mentes e o comportamento das grandes massas.

Mas não importa, mesmo que essas pessoas batam os pés como crianças birrentas e mal acostumadas, querendo ter razão como uma espécie de competição, de guerra para medir quem tem mais força, a ciência já provou que a homossexualidade não é uma doença ou uma disfunção e continua a estudar e a falar nos Países mais desenvolvidos e com as leis mais avançadas que as crianças que têm pais adotivos homossexuais são pessoas emocionalmente e intelectualmente tão sadias quanto as outras de famílias biológicas nucleares.

Lembrando que muitas famílias nucleares, ou seja, formadas por pais heterossexuais e filhos, também podem educar muito mal, serem agressivas, violentas e não saberem amar.

Ser um bom pai adotivo não é uma questão de ser homo ou heterossexual, e sim uma questão de maturidade e boa educação. Nós, psicólogos que avaliamos psicologicamente os candidatos a adoção, sabemos o que observar de importante e relevante nos adotantes. Com certeza podemos dizer cientificamente, com base na antropologia, sociologia, filosofia, medicina e psicologia, que uma família não é feita somente de um homem, uma mulher e filhos biológicos, mas sim de seres humanos que são capazes de ter o sentimento de pertencimento, que se aceitam por aquilo que são, que se respeitam e conseguem respeitar os outros porque têm um bom exercício de respeito em casa e sobretudo de seres que se amam. E aqueles que não querem viver ou aceitar essa verdade já provada estará sempre vivendo em atraso, de acordo com uma grande hipocrisia e a brigar com a evolução do mundo que, ainda bem, é inevitável.

O fato de fazer parte de um grupo do que chamamos de minorias, nos faz ao menos esperar que os homossexuais possam ensinar uma bela coisa a seus filhos adotados - que muitos pais heterossexuais estão esquecendo por não ter a capacidade de serem tolerantes - a respeitar as diferenças sem brigar com o mundo somente para provar a si mesmos que têm algum valor por ter razão, porque uma coisa é justa e muito boa, todos somos humanos, mas ninguém é igual.

É uma tristeza, um desgosto que ainda existam tantas crianças experimentando a dor do desamparo e da insegurança sem ter uma família em muitos Países com leis atrasadas, como as da Itália, por exemplo, também pelo fato de muitos ainda acreditarem que não poderiam ter pais homossexuais, talvez porque os seus governantes a muitos cidadãos, que não lutam para mudar as suas leis, já terem esquecido o que é ser criança.

Por Cintia Liana Reis de Silva